quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

BARRA DO CORDA


Sonhei com o paraíso e fui bem longe...
Distante, muito longe dessas plagas!
Saudade aqui no peito brada e ronge,
Ao vislumbrar no tempo as velhas sagas...

Nascidas de lembranças nunca vagas,
As gotas no meu rosto a mão esponje,
Do tempo a transcender qual fosse um monge
A aliviar a dor das minhas chagas!

Em sonhos vejo o tempo que não vi
Passado tão depressa bem ali
─ Na infância que a saudade me recorda!

Sonhei com o paraíso onde eu nasci...
E de onde ainda criança eu saí
─ Minha Barra querida e o rio Corda!

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

DEFEITOS


Tenho defeitos... Ah! E como os tenho!
Um deles é te amar sem ter medida...
Ah! Outro é te encontrar por esta vida
E me sentir tão prosa em ser teu lenho...

Tenho defeitos, sim, e mais me empenho,
Em te fazer assim minha querida.
Se um dia andei distante, hoje aqui venho,
Em busca da tua voz nunca esquecida!

Não há sentido em ter-te tão distante,
Quando o que eu quero é ver-te nesse instante,
Para matar saudades que guardei...

Em nesga a lua eu vi... Lá te encontrei
Entre as estrelas, inda que minguante...
Outro defeito... Amei-te... Ah... Como amei!


sábado, 1 de novembro de 2014

O PENSAMENTO


No carrilhão das horas, solitário,
O pêndulo sucumbe-se ao destino
Não ouve as badaladas quais de um sino
Nem vê os descompassos do cenário

Em seu labor que é mais que centenário
Teria andado mais que um peregrino
Pois trabalhado tem mais que operário
Trabalha seja noite ou sol a pino

Qual pêndulo, se vai o pensamento...
Dá voltas, vira o mundo em um momento
E sem controle vai onde ele quer!

...É nele que eu viajo ao firmamento
Afasto o que na vida há de tormento
Faça calor, ou o frio que fizer

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

JOGO RÁPIDO


Não cala a voz do bêbado na esquina,
Ao desabafo infame apregoado;
Não cala o vagabundo em sua sina,
Na luta por um bem aquinhoado;

Não cala a boca livre no pecado,
Que a vida torpe abraça e lhe fascina...
É a trupe que o ditame determina,
Nos atos do agora ou do passado!

Mas, cruel, a insipidez do mau costume
Oculta-se em disfarce de perfume,
Ao despojar da vida o seu valor...

Desfere o golpe liso do seu gume
E faz calar a voz que sente a dor
...Na escuridão do leito, sem um lume!


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

PRIMA-DONA


Nas vezes que eu te vejo me demoro
A apreciar de ti toda a beleza!
O tempo passa célere e eu ignoro
E fico a navegar em tua leveza...

Tua voz de prima-dona e ar de princesa
Ressoa como o canto mais sonoro,
Arranca-me arrepio em cada poro,
No arroubo da elegância e da destreza!

Ó bela imaginária dos meus sonhos,
Figura quase etérea a me seguir,
Trazes pra mim os sonhos mais bisonhos!

A cada gesto teu a me curtir,
Acabo-me nos lábios teus  ̶  risonhos  ̶
E acordo a procurar-te no existir!...

terça-feira, 26 de agosto de 2014

À DERIVA



Quando a desconfiança assume o posto
Difícil é reverter leme do barco!
Se havia controle algum, agora é parco
E a onda leva embora a contragosto!

Avultam-se arrecifes... Mês de agosto...
O que era mar agora virou charco!
Trocado o certo foi pelo suposto
Deixou fincada a flecha, levou o arco!

Já não há tempo mais para conversa
A mão desfere o golpe de perversa
Na errada e hipotética visão...

O barco encheu-se d’água e a popa imersa
Já não atende ao leme ou vice-versa
E vai por água abaixo, sem timão...


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

TUDO PASSA !


A vida vira a página do dia
Pra dar lugar à noite benfazeja!
Que venha e traga a paz que a alma deseja!
Seja bem-vinda em sua fidalguia!

No palco efervescente ou na coxia,
O começar da noite relampeja,
Enquanto o corpo rola e balbucia,
Aos goles e sabores de cereja!

Passam-se as horas, tudo se adormece...
A vida deita em seios, qual em prece,
E em colos e regaços dorme entregue!

O mundo gira e cedo já amanhece!
Alma refeita, em pé... Vida que segue...
Em nós, já só lembrança permanece...