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sábado, 1 de outubro de 2011

A HISTÓRIA DE JOÃO-GRANDE












Encontrei nego Saci
Pulando nu’a perna só
Nessa noite nem dormi
De tanto que senti dó
Pois a história que eu ouvi
Nela tanto eu me envolvi
Que rasguei meu paletó!

Saci falava tão sério
Que me envolvi de verdade
E naquele despautério
Transformei em realidade
Um fato tão deletério
Quase fui pro cemitério
Com toda sinceridade!

Corre o Saci com seu gorro
Olhando com olhos grandes
Alguém grita por socorro
O chão embaixo se expande
Há um vulto subindo o morro
Vejo no chão onde corro
Marcas do pé do João-Grande

Ó meu Deus que rebuliço
- Grita a moça apavorada
Parece um chão movediço!
- Respondi: É uma enxurrada
Corra praquele maciço
Não se arrisque a ter sumiço
Se abrigue lá nu’a latada

Falando isso corri
Em meio ao buritizal
Matos quebrando eu ouvi
Pro lado de um bambuzal
Respirei fundo e senti
Um cheiro de sucuri
Dona de um bote mortal

Ensinou-me a experiência
Que abrigo fica no alto
E co’aquela consciência
Não perdi tempo e num salto
Usei força e sapiência
Para minha subsistência
Subi pra longe do assalto

Acontece que lá em cima
Tinha um cheiro tenebroso
Que mesmo naquele clima
Era um cheiro cavernoso
Fui perdendo a auto-estima
- Sei que isso desanima
E fui ficando nervoso

De repente um movimento
Da árvore que eu escolhi
Para ser meu livramento
Fez-me ver longe o Saci
Que mais leve do que o vento
Viu de lá meu sofrimento
E o lugar onde eu subi

João-Grande, vem me pegar!
- Gritou ele já correndo
A árvore pôs-se a andar
E a casca toda mexendo
Eu danei a escorregar
Fui parar no polegar
Daquele monstro horrendo!

João-Grande era um gigante
Mistura de bicho e gente
De um aspecto degradante
Mas que não era valente
Era um ser que andava errante
Solitário caminhante
Que só comia semente

Quando no seu pé me viu
Deu um urro alvoroçante
Que o vento que ele expeliu
Derrubou árvore adiante
E a mata toda se abriu
U’a velha ponte caiu
... Fui acordar bem distante!

Quando João-Grande corria
Abria clareira no chão
A terra toda tremia
Ressoava qual trovão
Mas João-Grande não sabia
Porque o povo corria
Com medo da sua mão

Até que numa hora santa
Algo caído do céu
Que nada tinha de planta
Fez ali um fogaréu
E a correria foi tanta
João-Grande abriu a garganta
Pra comer o seu pitéu

Querendo entender ao certo
Saci foi se aproximando
Com folhas também coberto
Em sua perna pulando
Foi quando viu bem de perto
João-Grande em folhas coberto
Em árvore se tornando!

Pouco tempo se passou
Seu topo sumiu de vista
A altura quintuplicou
Já não se vê mais a crista
Em nuvem se transformou
Dizem que à Lua chegou
E que de lá nos avista!

Saci contou-me essa história
Numa noite enluarada
Peito inflado de vanglória
Sentado numa calçada
Em eloqüente oratória
Para deixar na memória
Sua história bem contada

João-Grande mora na Lua
Bem longe daqui da Terra
- Diz Saci, que perpetua
O que sua lembrança encerra
E na ingenuidade sua
Agora pula na rua
Despede-se e sobe a serra!